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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A máfia do doping e seus comparsas

Quem acompanha o ciclismo há algum tempo já foi confrontado com o tema e teve dúvida sobre a pureza e a moral do esporte. Não podemos generalizar - existem ciclistas profissionais que não se dopam -, mas quando se trata de competição, é muito tentador trapacear para buscar vencer a qualquer custo.


Uma empresa investe dinheiro em um time profissional de ciclismo e quer ver o retorno do seu investimento em curto espaço de tempo. Além do time, a empresa investe também uma enorme quantia de dinheiro no marketing, na publicidade e na imprensa.

O time, por sua vez, sofre uma enorme pressão do patrocinador por bons resultados. Bons resultados geram mídia espontânea, aquela que não custa nada ao patrocinador e que também atinge o consumidor e público-alvo.

Como a empresa sente esse retorno? Com a venda de produtos. Algumas pessoas podem pensar que as empresas têm unicamente o interesse de aparecer na mídia, junto aos artigos, matérias e entrevistas em jornais, revistas, rádio e televisão. Mas a mídia é apenas um meio para o fim: o interesse das empresas é faturar com a venda de seus produtos.

O atleta incorpora força, vitória, energia, juventude, superação, beleza, saúde e fairness. Esses adjetivos asseguram uma boa imagem e um bom marketing para uma marca.

Espantoso é confirmar que até as notícias ruins alavancam a venda de produtos e publicidade. Nos anos 90, algumas empresas que se retiraram do ciclismo profissional por patrocinarem times acusados de doping, como o caso do time da Festina em 1998 no Tour de France, aumentaram suas vendas de relógios depois do escândalo. Outro exemplo de boas vendas depois de uma exposição ruim na mídia é o da empresa suíça de aparelhos auditivos, a Phonak, que tinha Floyd Landis em seu time, o vencedor do Tour de France em 2006, que comprovadamente  fez uso de doping.

Agora chegamos no elo fraco: o atleta profissional que recebe pressão direta e indireta do time, do patrocinador, dos próprios ciclistas concorrentes e de nós que acompanhamos as competições. Patrocinadores e times não medem esforços e investem muito para que o atleta busque os bons resultados, inclusive por meios ilegais, se for preciso.

O atleta profissional pressionado, que vive desse trabalho, cede à pressão e mutias vezes se dopa. Alguns chegam a se transformar em verdadeiros junkies (viciados). A concorrência é grande no meio do ciclismo profissional e apenas o esporte em si não é mais suficiente - os bons resultados é que importam.

Grandes campeões e famosos ciclistas confirmaram o uso de doping, como Fausto Coppi, Louison Bobet, Eddy Merckx, Jacques Anquetil, entre outros.

Veja a lista de vencedores do Tour de France desde 1991. A maioria são suspeitos de doping: Indurain (seu médico afirmou ter trabalhado com EPO), Riis (confirmou uso de EPO), Jan Ullrich (acusado e suspenso), Armstrong (com exames de urina duvidosos no Tour de 1999), Pantani (uso de cocaína), Landis (acusado e confirmou uso de doping), Contador (acusado e suspenso por doping) – é difícil acreditar que algum deles estivesse realmente limpo.


Tipos de doping

 Betabloqueadores: são remédios que baixam a pressão do sangue, diminuindo o número de batimentos do coração. Ajudam em esportes que exigem precisão.

 Diuréticos: usados pouco antes da competição para desidratar o organismo e diminuir o peso dos atletas para competirem em categorias inferiores. Usados pelos atletas também para mascarar outras drogas usadas.

 Estimulantes: agem direto no sistema nervoso melhorando o desempenho do atleta com objetivo de quebra de marcas e recordes.

 Transfusão de sangue: os atletas injetam sangue pouco antes da competição. A transfusão aumenta a quantidade de glóbulos vermelhos e, por consequência, a capacidade de circulação de oxigênio.

 Narcóticos: são mais utilizados para aliviar dores.

 Esteróides anabolizantes: são hormônios sintéticos para aumentar a atividade anabólica, isto é, promovem o crescimento. Alguns chegam a usar preparações farmacêuticas para uso veterinário. O hormônio sintético mais conhecido é o Eritropoietina (EPO).

Quase nenhum atleta profissional é louco de ir contra o seu empregador ou patrocinador de equipe com o risco de sofrer longos e dolorosos processos judiciais com grandes multas e perdas financeiras.

Também é difícil que um atleta confesse o doping. Um atleta que resolver confessar e confirmar o uso de substâncias dopantes é automaticamente discriminado e deixado à mercê do patrocinador, da mídia, dos colegas de profissão, do time e do público em geral, que o execram. Alguns desses atletas arrependem-se e admitem que se pudessem voltar no tempo, não confirmariam o uso de doping e prefeririam os castigos (suspensões e multas) a sofrer a discriminação e o abandono.

Você já percebeu que a maioria dos ciclistas que são acusados, negam o uso de doping e mesmo quando as acusações são confirmadas, continuam negando, mas pagam as suas respectivas multas e aceitam suas suspensões? Veja o caso de atletas como Virenque, Ivan Basso, Vinokurov, Contador e outros que estão na ativa.

 Um Alberto Contador, depois da bela história da ingestão de carne bovina contaminada com a substância anabolizante clembuterol, retorna em um time de ponta e continua faturando os seus milhões. Por quê? Porque ele gera notícia, tem fãs que o idolatram. Resumindo: mesmo com a ficha suja, ele continua gerando dinheiro a um patrocinador.

Quem não vai acompanhar o retorno do espanhol às competições, em agosto desse ano, para observar o seu rendimento perante aos outros ciclistas “limpos”? Só nessa o patrocinador já ganha com o interesse no retorno do super-herói. Observe em que ponto chegamos: nós aceitamos atletas mentirosos e ainda por cima continuamos a incentivar e gerar audiência para o atleta. Somos coniventes, ou?

Quem é o culpado?

É difícil responder essa questão. Passei um bom tempo pensando a respeito e cheguei à conclusão de que nós que acompanhamos o ciclismo e as competições, como os grandes tours, somos um dos grandes culpados, pois incentivamos esses eventos, acompanhamos pela mídia, consumimos produtos das empresas que patrocinam o esporte profissional e idolatramos de alguma forma esses super-ciclistas. Poderíamos mudar isso - mas estamos dispostos?

A evolução da indústria do doping

Será que o ser humano evolui tão rapidamente a ponto de superar-se em tão curto espaço de tempo, quebrando recordes a todo o momento?

Atualmente, não apenas o doping ilegal evoluiu, mas também a indústria para os exames anti-doping, que acusam o uso de substâncias irregulares bem mais rápido e fácil do que há alguns anos.

Doping é um enorme negócio e muitos lucram apenas com o desenvolvimento de novos meios para se dopar e melhorar rendimentos.

Pode-se imaginar o futuro do doping na manipulação genética, o que trará uma nova dimensão ao mundo dos esportes. Deixando solta a imaginação, serão mudanças e transformações físicas irreversíveis em atletas. Parece ficção científica, teremos os primeiros seres mutantes: um ciclista com três pulmões; uma nadadora com guelras; um saltador de distâncias com molas embutidas nas pernas.

Afinal, ainda existe moral no esporte profissional?

Mas por que no ciclismo o assunto doping é tão exposto?

Talvez porque o histórico de doping esportivo documentado se inicie nos anos de 1890 com o ciclismo. Porque as primeiras mortes de atletas dopados nas Olimpíadas de Roma em 1960 foram ciclistas (os dinamarqueses Knut Jensen e Jörgen Jörgensen). Talvez porque todas as novas substâncias ilegais ou outros novos meios de doping são descobertos primeiro no ciclismo.

O tema da Revista Bicicleta é o ciclismo, mas não se iluda: outros esportes têm o mesmo problema com o doping, como o atletismo, natação, esportes de inverno e até mesmo o poderoso futebol, ou você acha que não? O futebol tem igual ou mais casos, mas por que não se ouve tanto? Será que é porque tem muito dinheiro envolvido?

Enfim, em um mundo tão competitivo, o que é mais lucrativo: apoiar bons resultados, se necessário com uso de doping, ou combater as trapaças e satisfazer-se com maus resultados, que não geram mídia nem dinheiro?

Sem tirar o mérito de inúmeras superações dos atletas, é indiscutível que a competição permite a evolução de técnicas e tecnologias, mas estimula a sobreposição do glamour, do poder e do resultado em relação à moral, à saúde e ao que pode ser considerado ético e humano.

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