Depois de assumir uma nova postura,
mais calma, paciente e “slow bike”, nos meus deslocamentos pela cidade,
resolvi falar agora sobre um outro lado mais agressivo, por assim
dizer, ligado a velocidade e esforços máximos sobre duas rodas.
Adrenalina, diversão, superação e prazer
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A velocidade máxima chegou a passar dos 80km/h.
Foto: Tag and Juice/Divulgação |
Além dos deslocamentos urbanos, existem várias outras modalidades de
uso da bicicleta. Enquanto alguns preferem pedais mais longos, audax,
cicloviagens, trilhas, escadarias e manobras, outros são adeptos
do pedal mais rápido e “performance”. Superar limites é a paixão que
move muita gente e todos os usos possíveis da bicicleta são plenamente
legítimos e igualmente apaixonantes.
Falo isso por que participei recentemente de uma mini-competição de
corrida sobre “rolo” – instrumento feito para o ciclista pedalar sem
sair do lugar. É muito legal pedalar rápido. E esse tipo de experiência
sempre me faz refletir sobre a necessidade de termos equipamentos
públicos disponíveis para as pessoas exercitarem suas vontades de
correr, pular, fazer pirueta e extravasar toda a adrenalina dentro de
si. O evento foi organizado pela loja Tag and Juice, que fica na Vila
Madalena, e reuniu dezenas de pessoas que queriam testar seus limites.
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Eu concentrada ao lado da minha adversária, Juliana. Foto Ana Paula Leonc |
Não é a toa que, principalmente aos finais de semana, as ciclofaixas
de lazer, parques e vias exclusivas para a bicicleta ficam abarrotadas
de ciclistas em busca de treino e velocidade. Mas por serem locais que
recebem um público cada vez maior de iniciantes, crianças e pessoas de
todas as idades, fica difícil aceitar e estimular altas velocidades
nesses lugares.
Opções
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Velódromo de Caieiras/SP
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A ciclovia que beira a Marginal do Rio Pinheiros - por ter poucos acessos de entrada e saída
que viabilizariam seu uso eficiente para o transporte – é atualmente
muito utilizada pelas pessoas que treinam ciclismo, pedalam forte, com
médias altíssimas de velocidade.
Outra opção utilizada são as rodovias, para pedalar nos acostamentos,
mesmo sabendo que o poder público desconsidera oficialmente a presença
dos ciclistas (inclusive de moradores das cidades próximas), fechando os
olhos e se omitindo de garantir a nossa segurança (por vezes até proibindo nossa presença) em um espaço onde temos direito legal de circular, seja a lazer ou por necessidade de deslocamento.
USP
A Universidade de São Paulo recebe diariamente pelotões de ciclistas
que usam as ruas do Campus para treinar, mas por se tratar de um
ambiente de circulação intensa de pessoas, vez ou outra os ciclistas são
recebidos com tachinhas no chão para sabotar a prática. Um conflito desnecessário, que mostra a intolerância e falta de respeito de
todos.
Por outro lado, em 1975 foi construído nas dependências da Cidade
Universitária um velódromo para receber as competições de ciclismo no
Pan-Americano de São Paulo – antes dos jogos serem transferidos para a
Cidade do México.
O velódromo é uma espécie de autódromo de ciclistas, um local
fechado, com percurso oval delimitado e sem circulação de
pedestres. Mas o da USP está fechado
desde o final dos anos 80.
A administração e a cidade abandonaram um dos equipamentos públicos
mais eficientes para dar vazão à parte mais “agressiva” do ciclismo de
velocidade.
No Brasil, existem atualmente poucos velódromos disponíveis, como os
de Caieiras/SP, Rio de Janeiro/RJ e Curitiba/PR. Mas, de acordo com
relatos de usuários, dentre estes três apenas o do Rio é bem feito, bem
conservado, bem frequentado e um exemplo de investimento de qualidade no
ciclismo.
Segundo uma
matéria da Folha de São Paulo,
publicada em agosto de 2011, “o diretor do Cepeusp (Centro de
Práticas Esportivas da USP), Carlos Bezerra de Albuquerque, diz que está
aberto para que os ciclistas façam propostas para o uso do espaço.
Dessa forma, seria possível tentar verbas no Ministério dos Esportes ou
com a iniciativa privada. Quanto a verbas próprias da universidade para
a reforma, o diretor afirma que a instituição não colocou o velódromo
como prioridade, mas que já existe um plano diretor com projeto para
reforma do espaço”.
Leia mais:
E o velódromo da USP
Caieiras
A pista de Caieiras fica a 40 km de São Paulo e conheço muita gente
que vai até lá para soltar os freios e pedalar muito forte. É o caso dos
adeptos das
fixed gears - “roda fixa” – bicicletas simplistas e
sem marcha muito utilizadas em competições de velocidade em outros
países, que ganhou as ruas das cidades graças à sua baixa manutenção,
beleza e conexão completa com o corpo. Entenda melhor o funcionamento dessas bicicletas.
Veja nesse vídeo do André Seitsugo como a galera do
Clube de Ciclismo da Ciclo Vila se diverte pedalando no velódromo de Caieiras. Eu já experimentei e recomendo, é uma experiência transcendental e inesquecível!
Ciclovia no autódromo
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Projeto do Autódromo. Imagem: Divulgação
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O Autódromo de Interlagos, em São Paulo, passará por uma reforma
estrutural com previsão de entrega em 2013. E a novidade é que está
sendo planejada uma ciclovia que contornará toda a área, chegando a ter
inclusive um acesso à Represa do Guarapiranga.
Segundo
reportagem da Folha de São Paulo,
o projeto completo para o autódromo conta, ainda, com área de parque,
pista de skate, quadras e um Museu do Automóvel (e por que não fazer
também um museu do ciclismo?)
Se concluída, essa área de ciclovia será outra ótima opção para os
ciclistas que gostam de treinar forte, profissionalmente ou não.
Inclusive a Ciclovia Rio Pinheiros chega bem perto do Autódromo, dá até
pra ouvir o barulho dos motores rasgando o silêncio e abafando o som dos
pássaros que sobraram perto do Rio.
Ciclismo também é esporte!
Ciclistas também se divertem, correm, competem, têm ídolos e
movimentam um mercado consistente. Uma pena o Brasil não dar valor às
modalidades esportivas menos “cobiçadas”, principalmente quando elas têm
um potencial revolucionário de transformar nossas cidades. E até pessoas.
Enquanto isso, ficamos discutindo monotematicamente na frente da TV
os gols do Neymar, assistindo de camarote a violência das torcidas
organizadas e sendo cúmplices de transações obscuras e bilionárias para
tudo que ronda o mundo da bola.
É mais ou menos o que fazemos ao assumir que todo brasileiro é
apaixonado por carro: limitamos as escolhas, desrespeitamos as pessoas.
Vá de Bike - Aline Cavalcante