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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

ONG incentiva mulheres afegãs a pedalar

A ONG Mountain2Mountain (M2M) fundada pela norte-americana Shannon Galpin em um esforço para romper as barreiras de gênero, com especial atenção às mulheres e meninas em zonas de conflito. No Afeganistão, os esforços da ONG buscam incentivar o uso da bicicleta pelo público feminino.


 Shannon visitou o Afeganistão pela primeira vez em 2009. Ela pedalava por colinas nos arredores de Cabul, Afeganistão. Passando por caravanas de camelos e tanques soviéticos abandonados, ela percebeu que não via outras mulheres pedalando. “Estive nas áreas mais liberais do país, e nunca vi sequer uma garotinha andando de bicicleta, que dirá uma mulher adulta”, diz Galpin.

Foi em um café local que uma barista, ciclista amadora, revelou a Galpin que algumas mulheres afegãs estavam pedalando e haviam até formado uma equipe nacional. A informação pegou Galpin de surpresa, e ela só acreditou quando viu as mulheres com calças e mangas compridas, lenços de cabeça sob os capacetes, pedalando antes do amanhecer em antigas bicicletas. Uma mulher pedalando no Afeganistão é considerado ofensa cultural, por isso a cautela e discrição das afegãs ao treinarem. Embora intimidadas pelas limitações nos direitos femininos, o ciclismo afegão possui atletas muito competitivas, que concorrem internacionalmente.

Galpin afirma: “A bicicleta é considerada um tabu cultural para as mulheres de lá. O Afeganistão é um dos poucos países onde as mulheres não andam, mas ainda assim eu sabia que, como estrangeira, eu poderia ajudar a romper as barreiras de gênero e desafiar as percepções das mulheres ciclistas. Agora, foi incrível ver que existem mulheres afegãs ciclistas que compõem uma equipe nacional, graças aos últimos dez anos de progresso no Afeganistão. Ainda é arriscado para as mulheres pedalar, mas a mudança tinha que começar em algum lugar, e estas mulheres assumiram este papel”.

Shannon Galpin já havia criado a ONG M2M em novembro de 2006, em uma ação resultante de sua convicção de que todas as mulheres e meninas merecem os mesmos direitos e oportunidades. Para levar adiante sua missão, Galpin afastou-se de sua carreira de instrutora de Pilates e preparadora física, juntou os recursos que tinha, recrutou voluntários, doadores e buscou parcerias de todos os lugares do mundo que pudessem colaborar, a fim de capacitar as mulheres de regiões de conflito para se tornarem agentes de mudança, com dois projetos iniciais no Paquistão e Nepal.

No momento em que conheceu o Afeganistão, migrou os seus esforços para aquele país em busca de reivindicar o direito feminino ao uso da bicicleta, que além do esporte também representa a emancipação da mulher e a igualdade entre os gêneros no usufruto da vida social, da paz e da prosperidade. “No Afeganistão, são os rapazes e homens que usam a bicicleta diariamente. As mulheres que optam por fazê-lo são orientadas a andar com um membro masculino da família ou com um treinador. Levará muitos anos para que isso mude, mas muito parecido com o trabalho de outras organizações, como a Skateistan, que ensina meninos e meninas a andarem de skate, a mudança com relação à bicicleta ocorre à medida que mais e mais jovens abraçarem o esporte e aceitarem esta mudança. Não há lei que proíba as mulheres de pedalarem sozinhas, isso é apenas um tabu cultural, mas é o tabu, essencialmente, que está acima dos crimes morais que levam as mulheres afegãs à prisão ou até à morte. Ou seja, é um risco, embora não seja um crime”, afirma Galpin.


Se, por um lado, Shannon contribuía com as mulheres afegãs, por outro, ela também queria contribuir para a mudança de visão estereotipada que os americanos tinham do Afeganistão. “O Afeganistão é um país bonito, mais bonito do que a maioria das pessoas imagina. Eu sou uma ciclista e depois de várias visitas lá, comecei a perceber que aventura, exploração, arte e esporte são possíveis no Afeganistão e que eu podia mostrar um lado diferente do país do que o que o Ocidente normalmente vê. Eu também queria conhecer o Afeganistão de uma forma que só é realmente possível em uma bicicleta: cheirar, degustar, ter as interações de improviso com os afegãos”, explica.


O cenário atual

Segundo a União Ciclística Internacional, o Afeganistão conta atualmente com 45 afegãs licenciadas em três categorias: júnior, sub-23 e elite, que participam de eventos UCI. O sonho de Galpin é contribuir para que o país tenha representantes femininas nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Ao longo do tempo, a ONG contribuiu com equipamentos, ajudas de viagem para competições, e especialmente no contato com o governo, parceiros e entidades da modalidade buscando base para a formação e preparação das ciclistas. “Minha casa parece um episódio de Acumuladores”, brinca Galpin ao citar o documentário da Discovery sobre pessoas que acumulam coisas. Ela distribuiu mochilas, ferramentas, selins, sapatilhas e camisetas para as ciclistas da equipe afegã.

Há alguns meses, a ONG trabalhou na gravação de um documentário, com recursos advindos de financiamento coletivo kickstarter, com o apoio de 208 investidores. Galpin foi acompanhada por uma fotógrafa, uma escritora, uma gerente de mídia social e duas cineastas, para concretizar o curta-metragem.

Os trabalhos da ONG não se restringem ao auxílio à equipe. A M2M também procura a mudança cultural através da educação - já que o futuro está nas mãos das crianças e jovens. Contribuir com a formação de valores resultará, no longo prazo, em transformação social. Segundo a ONG, se 10% das meninas de um país em desenvolvimento tiver acesso à educação, a economia daquele país tende a crescer 25%. No Afeganistão, ainda há aldeias em que nenhuma mulher sabe ler ou escrever.

Uma das ações é o oferecimento de treinamentos intensivos para parteiras. A iniciativa foi tomada porque a gravidez é uma das principais causas de morte de meninas entre 15 e 19 anos naquele país. Em média, uma afegã dá à luz sete filhos. Há estatísticas, segundo a ONG, que mostram que uma em cada 62 mulheres que vivem no Afeganistão morre durante o parto. A mortalidade infantil naquele país é o maior do mundo: uma em cada quatro crianças morre antes dos cinco anos. Com parteiras capacitadas, inclusive com conhecimentos sobre técnicas de saneamento básico e pré-natal, especialmente nas regiões rurais, muitas destas mortes poderiam ser evitadas. As mulheres capacitadas recebem uma bolsa, o que também coopera para a atuação delas no contexto social e econômico de suas vilas.

Outro problema a que a ONG move esforços é para a educação de crianças surdas que, atualmente, somam 10 mil no Afeganistão. O número elevado de casos de surdez decorre de inúmeros fatores, inclusive as complicações de parto, ferimentos de bombas e minas e a falta de serviços preventivos e vacinação. Através da mobilização da ONG, em 2010 o governo doou um terreno de cinco hectares para a construção de uma escola para surdos. Agora o alvo é reunir 800 mil dólares para a construção da escola e centro de formação de professores, além de uma fazenda para formação profissional em agricultura para surdos.

O número de mulheres presas no Afeganistão também é muito grande. A M2M trabalha no sentido de advogar e alfabetizar as prisioneiras, criando oportunidades para quando elas forem liberadas.

Além disso, centros de reabilitação e laboratórios de informática para escolas de meninas em Cabul, incentivo a artistas afegãos e à atuação feminina em busca de se fazer ouvir estão entre os projetos da ONG naquele país.

Por que Galpin decidiu ajudar?

A sensibilidade, empatia e coragem permitiram que a M2M estivesse na vanguarda deste importante trabalho social. Em seu portal na internet, a entidade afirma que as mulheres e meninas são o recurso mais subutilizado do mundo, e os esforços da ONG por uma mudança neste sentido buscam fortalecer a humanidade comum, conectar culturas e comunidades, respeitar a diversidade histórica e cultural, desde que isso não represente prejuízo para os direitos das mulheres, que no final das contas, são direitos humanos. “No coração da ONG está a ideia de conectar comunidades e culturas... Montanha a montanha, aldeia em aldeia, de pessoa para pessoa. Eu deixei meu trabalho, vendi minha casa, e tenho trabalhado nos últimos cinco anos no Afeganistão”, conta Galpin.

Essas características tão presentes de comprometimento na trajetória filantropa de Galpin possuem raízes tristes. Aos 17 anos ela foi estuprada e esfaqueada por um homem desconhecido enquanto caminhava em um parque vazio, no centro de Minneapolis - EUA, mas até 2009, apenas a família e amigos próximos tinham conhecimento do caso. “Eu não queria ser definida como vítima, eu não percebia que a vitimização poderia também ser uma fonte de força”, conta. Tempos depois, sua irmã passou pelo mesmo trauma.


A bicicleta foi o instrumento promotor de felicidade e de esperança que conquistou Galpin e que ela pretende oferecer a quem puder ajudar. “A bicicleta é a minha sanidade, minha parceira de aventura e exploração, o melhor símbolo de liberdade que eu conheço. Eu sou mais feliz quando estou pedalando por trilhas de terra. Em todo o mundo, a bicicleta é utilizada como um veículo para a justiça social. Mesmo em nossa própria história, aqui nos Estados Unidos, a bicicleta se tornou um símbolo para o movimento de participação feminina. As bicicletas aumentam o acesso de meninos e meninas para chegarem a escolas rurais, aumentam o acesso à assistência médica rural, representam transporte seguro para as mulheres até o trabalho, o que ajuda a limitar abordagens indevidas. Além disso, há algo muito visceral sobre ciclismo que nos faz felizes, e esta é uma experiência que todos os meninos e meninas ao redor do mundo tem ao aprender a pedalar”, finaliza.

Fonte: Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner

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